Contas públicas sob pressão: mercado teme crédito mais caro logo após a reeleição de Lula
Circuit breaker na Bolsa, dólar a R$ 5,60 e juros futuros a 15,25% marcam o primeiro pregão após a eleição, enquanto o mercado cobra ajuste fiscal.
POR REDAÇÃO THE X-TRADER NEWS · COM INFORMAÇÕES DE GAZETA DO POVO · 3 MIN

O primeiro pregão após a reeleição do presidente Lula terminou com sinais de estresse no mercado. De acordo com a Gazeta do Povo, na segunda-feira (26) a Bolsa parou no circuit breaker, algo que não acontecia havia seis anos, o dólar bateu R$ 5,60 e os contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 chegaram a 15,25% ao ano. A preocupação vai além das primeiras semanas do novo mandato: investidores temem que a falta de disciplina nas contas públicas encareça e restrinja o crédito.
Especialistas consultados pela Gazeta do Povo avaliam que, sem um ajuste nas contas, as instituições financeiras tendem a ser mais cautelosas: podem reduzir a oferta de empréstimos e tornar mais difícil renegociar dívidas já existentes. Os dados do Banco Central mostram o tamanho do problema. Em agosto, o comprometimento com dívidas bancárias já atingia 50% do rendimento anual dos lares, e quase um terço da renda ia para parcelas e juros. A Allianz Trade prevê alta das insolvências de empresas no Brasil até 2027, e a escassez de crédito ajudou a puxar recordes de recuperação judicial e de falências.
Para José Márcio Camargo, da Genial, a reeleição de Lula manteria a mesma política que fez crescer a dívida pública, o déficit e o endividamento das famílias e do governo nos últimos quatro anos. Roberto Motta, também da Genial, condensou a cobrança do mercado com uma frase: nesta gestão, Lula terá de reconquistar a confiança dos investidores.
Segundo a Gazeta do Povo, essa pressão se divide em três pedidos: um ajuste fiscal imediato, uma equipe econômica com independência e um entendimento de governabilidade com um Congresso de perfil conservador. Nesse cenário, o InfoMoney informou que o governo avalia alterar as regras de crescimento do piso mínimo de gastos em saúde e educação, a ser aplicado no ajuste de 2027, mas a proposta ainda não foi oficializada. Pelo que apurou o veículo, esses pisos constitucionais acompanham a arrecadação e podem crescer acima do limite geral do arcabouço fiscal.
Há ainda uma proposta vinda de fora do governo que inquieta o mercado. André Lara Resende, ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES na gestão FHC, sugeriu num artigo publicado em 25/9 que a Selic caia para algo perto de 7,5% ao ano em cerca de um ano, saindo dos 13,75% atuais, conforme Revista Oeste e Times Brasil. Segundo o Times Brasil, a ideia prevê mudanças amplas na forma como política monetária e política fiscal se relacionam. Lara Resende apoiou Lula em 2022 e fez parte da equipe de transição, mas declinou o convite para o Ministério do Planejamento. Em texto divulgado na segunda-feira (2), José Sergio Gabrielli, responsável pelo programa de governo da reeleição, afirmou que a proposta "merece atenção especial".
O que muda para o investidor
Para quem opera juros, dólar e Bolsa, o quadro junta três pontos de atenção. O primeiro é a precificação fiscal: sem um ajuste crível, a curva de juros e o câmbio podem seguir pressionados, como sugere o nível de 15,25% do contrato de janeiro de 2029. O segundo é o crédito: bancos mais restritivos e um custo de capital mais alto podem pesar sobre empresas dependentes de financiamento e sobre o consumo doméstico. O terceiro é a política monetária, já que a queda de 6 pontos percentuais na Selic proposta por Lara Resende exigiria, segundo a própria proposta, uma nova relação entre juros e contas públicas. Essa leitura não prevê preços nem recomenda compra ou venda de ativos. O desfecho depende de a proposta sobre pisos constitucionais ser formalizada e da resposta do Congresso.


