Banco do Brasil perde cerca de 28% em um pregão após a eleição e reabre o debate sobre agro e risco político
Segundo o Clube do Valor, ação já chegava fragilizada por calote no agro e lucro menor, e a vitória de Lula ampliou o desconto cobrado pelo mercado.
POR REDAÇÃO THE X-TRADER NEWS · COM INFORMAÇÕES DE CLUBE DO VALOR · 5 MIN
As ações do Banco do Brasil (BBAS3) tiveram queda de cerca de 28% em um único pregão, na segunda-feira, após a vitória de Lula no segundo turno. Segundo Ramiro Gomes Ferreira, fundador do Clube do Valor, o papel fechou a sexta-feira, 23 de outubro, a R$ 24,94 e foi a R$ 17,47 na segunda, o menor nível desde maio de 2023. O maior banco do agronegócio do país perdeu quase um terço do valor de mercado em uma manhã.
O tombo ocorreu em um dia de forte estresse. De acordo com o apresentador, o Ibovespa acionou o circuit breaker e fechou em queda de quase 14%, o pior dia desde 2020. Os juros futuros subiram mais de 2,5% na curva, e a expectativa de corte da Selic, hoje em 13,75%, deu lugar à precificação de uma chance maior de alta.
Um banco que já chegava machucado
Na avaliação do Clube do Valor, a eleição foi o último golpe em uma ação que já vinha castigada. Em maio de 2025, o banco suspendeu o guidance de lucro de R$ 37 bilhões a R$ 41 bilhões e viu o papel cair cerca de 13% no dia seguinte. O apresentador atribui a deterioração à carteira do agro, em que o banco detinha 50% dos financiamentos do setor no início de 2025, e à nova regra contábil da Resolução 4.966 do Banco Central.
O lucro de 2025 foi de cerca de R$ 20 bilhões, queda de 45%, e a rentabilidade sobre o patrimônio caiu de 21%, em 2023, para 11%. No primeiro trimestre de 2026, o lucro foi de R$ 3,44 bilhões, queda de 53%, com rentabilidade de 7,3%, e a projeção para o ano foi reduzida para a faixa de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões. O banco também cortou a parcela do lucro distribuída em dividendos para 30% e pediu para adiar a devolução de R$ 4,1 bilhões ao Tesouro. No segundo trimestre, a inadimplência total subiu para 5,6%, e o atraso no cartão de crédito chegou a quase 15%.
Dois ponteiros: a fazenda e Brasília
O apresentador sustenta que o preço do banco responde a dois fatores. O primeiro é o da fazenda, que reúne inadimplência, provisões e lucro, e se move devagar, de balanço em balanço. O segundo é o de Brasília, que envolve juros, risco fiscal e medo de interferência estatal, e pode mudar em uma noite de domingo. Entre agosto e o início de outubro, sem balanço novo, a ação foi de perto de R$ 17 para perto de R$ 26, alta de quase 50%. Para o Clube do Valor, o movimento refletiu a aposta em um novo governo, citando cálculo do Morgan Stanley de que cada ponto de queda nos juros longos renderia cerca de 13% de alta ao papel.
No primeiro pregão pós-eleição, todos os grandes bancos caíram, mas o Banco do Brasil foi o mais atingido: Santander recuou 4,5%, Itaú 13,6% e Bradesco 21,7%. Segundo o apresentador, a estatal tinha mais a devolver por ter subido mais na aposta de mudança e carrega risco por ter o governo como controlador. O Citi rebaixou a recomendação para venda, citando exposição maior a riscos políticos e regulatórios.
O que é risco e o que é ruído
Dos quatro temores que o apresentador enumera, ele considera dois reais e dois exagerados. Juros altos por mais tempo e o uso do banco como instrumento de política pública, como em 2012, no governo Dilma, seriam riscos concretos, ainda mais com a renegociação de dívidas rurais prevista na MP 1.314. Já o corte de dividendos, na visão dele, ocorreu antes da eleição por necessidade de capital, e a troca de diretoria teria um histórico menos assustador: no primeiro ano do atual governo Lula, o banco entregou lucro recorde. Ele lembra que a carteira de crédito é a mesma de sexta-feira, e que o próximo teste é o balanço do terceiro trimestre, em 11 de novembro, para o qual o Bradesco BBI projeta lucro de apenas R$ 1,8 bilhão.
Os analistas seguem divididos. Em levantamento da Reuters citado no vídeo, seis casas recomendam manter, três vender e duas comprar, com preços-alvo entre R$ 15 e R$ 22. O papel negocia a 0,55 vez o patrimônio e a 8,3 vezes o lucro, com retorno sobre patrimônio de 6,6% e dividend yield de cerca de 4% em 12 meses. O apresentador projeta três cenários: um otimista, com âncora fiscal crível e ação perto de R$ 22, um intermediário, com a ação entre R$ 19 e R$ 21, e um pessimista, em que R$ 15 deixa de parecer exagero.
Para o Clube do Valor, o histórico indica que o desfecho depende menos do dia da urna e mais do desempenho do agro nos meses seguintes. Após a reeleição de Dilma, a ação caiu cerca de 5% no pregão e 32% no ano seguinte. Em 2022, caiu 4,6% após a vitória de Lula e subiu 74% em 2023. A conclusão do apresentador é que o desconto é real, mas existe por um agro que ainda não se recuperou e por um controlador político, e que o preço menor é um fato, enquanto estar barato é uma tese. A análise é opinião do canal e não constitui recomendação de investimento.


